hados, com o estrondear das
carroças e o ladrar dos cães. As portas do armeiro estavam
abertas, e Bran viu de relance Mikken na sua forja, fazendo
tinir o martelo enquanto suor lhe pingava do peito nu. Bran
nunca vira tantos estranhos em toda sua vida, nem mesmo
quando o Rei Robert viera visitar seu pai.
Tentou não vacilar quando Hodor se abaixou para atravessar
uma porta baixa. Caminharam por um longo átrio sombrio,
com Verão acompanhando facilmente o passo. O lobo olhava
para cima de vez em quando, com os olhos ardendo como
ouro líquido. Bran teria gostado de tocá-lo, mas estava alto
demais para que a mão nele chegasse.
O bosque sagrado era uma ilha de paz no mar de caos em que
Winterfell tinha se transformado. Hodor abriu caminho
através dos densos maciços de carvalho, pau-ferro e árvores--
sentinelas até a lagoa parada junto à árvore-coração. Parou
sob os ramos nodosos do represeiro cantarolando. Bran
ergueu os braços acima da cabeça e alçou-se para fora do
assento, fazendo passar o peso morto das pernas através dos
buracos do cesto. Ficou pendurado por um momento,
oscilando, com as folhas vermelho-escuras roçando-lhe no
rosto, até que Hodor o pegou e o abaixou até a pedra lisa ao
lado da água.
- Quero ficar um pouco sozinho - disse. - Vá se molhar. Vá até
as lagoas.
- Hodor - o gigante seguiu através das árvores e desapareceu.
Do outro lado do bosque sagrado, sob as janelas da Casa de
Hóspedes, uma nascente quente subterrânea alimentava três
pequenos charcos. Saía vapor das águas dia e noite, e o muro
que se erguia ao lado estava coberto de musgo. Hodor
detestava água fria e lutava como um gato selvagem
refugiado numa árvore sempre que era ameaçado com sabão,
mas entrava alegremente no charco mais quente e ficava lá
sentado durante horas, soltando um sonoro arroto para fazer
eco à nascente sempre que uma bolha se erguia das sombrias
profundezas verdes e se quebrava na superfície.
Verão bebeu um pouco de água e deitou-se ao lado de Bran.
Este fez um afago sob o focinho do lobo, e por um momento
rapaz e animal sentiram-se em paz. Bran sempre gostara do
bosque sagrado, mesmo antes, mas nos últimos tempos
achara-se cada vez mais atraído para lá. Até a árvore-coração
já não o assustava como costumava antes. Os profundos olhos
vermelhos esculpidos no tronco claro ainda o observavam,
mas, de algum modo, agora tirava conforto disso. Os deuses
olhavam por ele, dizia a si mesmo, os deuses antigos, deuses
dos Stark, dos Primeiros Homens e dos Filhos da Floresta, os
deuses do seu pai. Sentia-se seguro à vista deles, e o profundo
silêncio das árvores o ajudava a pensar. Bran tinha passado a
pensar muito desde a queda; a pensar, a sonhar e a falar com
os deuses.
- Por favor, façam com que Robb não vá embora - rezou em
voz baixa. Moveu a mão pela água fria, criando ondinhas que
atravessaram a lagoa. - Por favor, façam com que ele fique.
Ou, se tiver de ir, tragam-no a salvo para casa, com a mãe e o
pai e as meninas. E façam com que... façam com que Rickon
compreenda.
O irmão mais novo tornara-se incontrolável como uma
tempestade de inverno desde que soubera que Robb ia partir
para a guerra, ora choroso, ora zangado. Recusava-se a
comer, chorava e gritava noite adentro, chegara mesmo ao
ponto de dar um soco na Velha Ama quando ela tentou
embalá-lo com canções, e no dia seguinte desapareceu. Robb
pusera metade do castelo à sua procura, e quando finalmente
o encontraram lá embaixo, nas criptas, Rickon golpeara-os
com uma enferrujada espada que tirara da mão de um rei
morto, e Cão Felpudo saltara da escuridão, babando como um
demônio de olhos verdes. O lobo estava quase tão fora de
controle como Rickon; mordera Gage no braço e arrancara
um pedaço da coxa de Mikken. Só o próprio Robb e Vento
Cinzento tinham logrado acalmá-lo, Farlen mantinha-o agora
acorrentado nos canis, e Rickon chorava ainda mais por estar
sem ele.
Meistre Luwin aconselhara Robb a permanecer em
Winterfell, e Bran também lhe pedira, tanto por si como por
Rickon, mas o irmão limitara-se a balançar teimosamente a
cabeça e a dizer:
- Não quero ir. Tenho de ir.
Era só meia mentira. Alguém tinha de ir, para defender o
Gargalo e ajudar os Tully contra os Lannister, Bran
compreendia isso, mas não tinha de ser Robb. O irmão podia
ter dado o comando a Hal Mollen ou a Theon Greyjoy, ou a
um dos senhores seus vassalos. Meistre Luwin insistiu para
que fizesse isso mesmo, mas Robb não queria ouvir falar do
assunto.
- O senhor meu pai nunca enviaria homens para a morte para
se esconder como um covarde atrás das muralhas de
Winterfell - dissera, todo ele Robb, o Senhor.
Robb agora parecia a Bran quase um estranho, transformado,
um senhor de verdade, embora não tivesse ainda passado pelo
décimo sexto dia do seu nome. Até os vassalos do pai
pareciam senti-lo. Muitos tentavam testá-lo, cada um à sua
maneira. Tanto Roose Bolton como Robett Glover exigiram a
honra do comando de batalha, o primeiro de forma brusca, o
segundo com um sorriso e um gracejo. A resoluta e grisalh